Luiza Caires / USP Online
lucaires@usp.br
 |
| Parte da história da FMUSP, professores recebem homenagem em noite solene da Congregação |
“Só as feridas lavadas cicatrizam”. Esta citação de Michelle Bachelet, presidente do Chile, foi escolhida Por Paulo Vanuchi, ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, para definir a importância do momento histórico vivenciado pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) na noite desta quinta-feira (18), quando sete professores afastados arbitrariamente durante o Regime Militar foram homenageados.
Realizado no Teatro da unidade, o evento contou com a a presença de deputados, autoridades e personalidades de destaque da comunidade científica, representando uma oportunidade de reconciliação da Universidade – à época constrangida pelas imposições do governo ditatorial – com seus antigos docentes.
O diretor da FMUSP, Marcos Boulos, que abriu a sessão solene da Congregação da unidade, lamentou que a Universidade tivesse perdido – ainda que em alguns casos temporariamente – o talento e a competência daquele professores. “Basta olhar para a trajetória dos homenageados fora desta instituição para termos uma leve dimensão do tamanho das perdas, que podem ser sentidas até hoje”.
Medalha
Boulos entregou a Isaías Raw – que já tem o título de professor emérito da FMUSP – a medalha Arnaldo Vieira de Carvalho, considerada a mais alta honraria da Faculdade, sendo outorgada às pessoas que se distinguiram por atividades intelectuais, didáticas e de pesquisa ou contribuído para o progresso da unidade.
Entre outros feitos notáveis, o professor fundou a Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) e a da Universidade de Brasília; dirigiu a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências (Funbec); criou a Fundação Carlos Chagas e o Curso Experimental de Medicina da FMUSP; e também teve um trabalho ativo na Fundação Instituto Butantan, da qual hoje é presidente.
Em seu discurso, Raw contou um pouco desta história dedicada à ciência e à academia, e que começou no segundo ano da graduação, quando já dava aula aos calouros do curso de medicina. Comemorou a homenagem como uma oportunidade definitiva de “não se ver mais como um injeitado”, sentimento que carregou durante os anos do Regime Militar em que esteve afastado – apenas por “não concordar com o status quo e expressar as reformulações que acreditava serem necessárias”, na Universidade e na prática científica.
Professores Eméritos
 |
| Marcos Boulos, diretor da FMUSP, e Paulo Vanuchi, ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos |
Erney Felício Plessmann de Camargo recebeu seu diploma de professor emérito das mãos de Paulo Vanuchi, ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, que no momento representava o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva.
Com um currículo que inclui a Pró-reitoria de Pesquisa da USP e a presidência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Erney iniciou sua produtiva carreira estudando a biologia do
Trypanosoma cruzi. Foi afastado da FMUSP em 1964, tendo que emigrar para os EUA. Em 1985 - ano que marcou o início da redemocratização brasileira - retornou à Universidade como professor titular do Departamento de Parasitologia do ICB. Atualmente é presidente da Sociedade Brasileira de Protozoologia.
Para o professor, a cerimônia da qual fez parte representou um importante momento de resgate histórico, além de reavivar o seu forte vínculo pessoal com a Faculdade, a despeito da injustiça sofrida na década de 1960, quando foi demitido, por razões políticas, apenas três anos depois da sua contratação.
O terceiro homenageado, Luiz Hildebrando Pereira da SIlva, é médico epidemiologista. Foi preso, processado, cassado e demitido da FMUSP em 1964, quando exercia o cargo de professor associado. No exílio, tornou-se professor e diretor de pesquisas do Instituto Pasteur, em Paris. Produziu mais de 100 trabalhos científicos sobre a malária, doença que chegou a contrair durante pesquisas de campo na África.
Hildebrando recebeu o diploma do chefe da Casa Civil do Estado de São Paulo, Aloísio Nunes Ferreira (representando o governador José Serra), e definiu a ocasião como uma honra merecida a pessoas que, mesmo na adversidade, mantiveram sua fidelidade tanto à ciência quanto ao país. Irreverente, lembrou a memória de um colega falecido, Samuel Pessoa, que, quando demitido da FMUSP, disse que nunca mais voltaria lá – e de fato não retornou. “Revoltado, todas às vezes que passava em frente à Faculdade de Medicina, Samuel colocava o pescoço para fora do carro e gritava um palavrão. Espero que hoje o seu fantasma, como em Hamlet, possa ficar em paz e dizer: agora sim, após esta noite, poderei voltar”.
Luís Rey, que recebeu a homenagem das mãos do Secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, foi contratado como professor assistente da FMUSP em 1951, sendo dispensado de suas funções de docente em 1969. Como epidemiologista da Organização Mundial da Saúde, da qual foi consultor por mais de 20 anos, erradicou a esquistossomose na Tunísia. Atualmente é pesquisador emérito da Fundação Oswaldo Cruz.
Rey relembrou algumas passagens desta história, exposta na autobiografia Um Médico e Dois Exílios, publicada pela Editora Guanabara. O título do livro é uma referência às duas ocasiões em que foi obrigado a sair do país, primeiro em 1964, para o México, e depois em 1969, com a publicação do Ato Institucional Número 5, época em que foi trabalhar na Europa.
Aloísio Nunes Ferreira condecorou também Michel Pinkus Rabinovitch, que foi nomeado professor assistente da USP em 1950. Demitido da FMUSP em 1964, por motivos políticos, foi nomeado em 1969 professor associado de Biologia Celular da Escola de Medicina da New York University. Trabalha desde de 1997 na Unifesp.
Em seu discurso, Rabinovitch citou diversos nomes fundamentais na sua história na Faculdade, e lembrou que “o expurgo realizado pelo Regime Militar não se deu somente na USP, mas em todas as universidades do país, que em função disso tiveram afastadas de seus quadros grandes personalidades”.
O homenageado seguinte, Pedro Henrique Saldanha, foi contratado em 1959 como professor assistente da FMUSP, junto à cadeira de Química Fisiológica, da Disciplina de Genética. Em 1964, com base no AI-1, foi demitido pelo governador Adhemar de Barros. Após ser processado, foi absolvido e contratado, em 1966, como professor assistente junto ao departamento de Química Fisiológica e Físico-Química Aplicada da FMUSP. Tornou-se professor adjunto do Instituto de Biociências, em 1975, e professor titular, em 1983.
Descrevendo este caminho que os percalços da história tornaram tortuoso, mas nem por isso menos exemplar, Saldanha relatou sua surpresa quando avisado da homenagem, que qualificou tanto de uma oportunidade de desagravo como um ato de sensibilidade e ética por parte da Faculdade.
A última homenagem foi entregue a Thomas Maack pelo professor Marcos Boulos, diretor da FMUSP, que no momento representava a reitora Suely Vilela. Bem humorado, Maack revelou certa estranheza em ser nomeado Emérito da USP após ter sido professor da Universidade por apenas dois anos (de 1962 a 1964, quando foi afastado) e comparou a sensação à de “ser avô sem ter sido pai”.
O currículo do cientista, entretanto, tem pouca relação com tamanha modéstia. Em 1969, Maack foi contratado como professor pela Escola Médica da Universidade de Cornell, em Nova York, onde mais tarde se tornou titular dos departamentos de Fisiologia e de Medicina. É membro da Academia Brasileira de Ciências desde 2000, e atualmente dedica seu trabalho à pesquisa e à formação de médicos.
Fotos: Marcos Santos